quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

MEC divulga municípios selecionados para construção de 520 creches

As mulheres terão em 2011 mais acesso à cidadania e ao direito de autonomia econômica e ao direito de trabalhar. Segundo o Mec, 520 creches serão construídas a partir das verbas designidas para o PAC 2. Leia a notícia veicula abaixo.

O MEC (Ministério da Educação) já selecionou os primeiros municípios que receberão recursos para construção de creches e quadras poliesportivas por meio da segunda etapa do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) 2. Nesse primeiro grupo, 223 municípios receberão verba para construção de 520 creches e 98 para 213 quadras.
  • Veja a resolução do FNDE e a lista de cidades beneficiadas
  • NO RS são as seguntes cidades:
  • CRECHES: Relação dos municípios selecionados em primeira chamada para a construção de unidades de educação infantil do Programa Pró-Infância no âmbito do PAC 2.
  • RS
    Alegrete
    4300406
    Grupo 2
    1
    RS
    Araricá
    4300877
    Grupo 1
    1
    RS
    Bento Gonçalves
    4302105
    Grupo 1
    1
    RS
    Cachoeirinha
    4303103
    Grupo 1
    1
    RS
    Camaquã
    4303509
    Grupo 2
    2
    RS
    Campo Bom
    4303905
    Grupo 1
    1
    RS
    Canguçu
    4304507
    Grupo 2
    2
    RS
    Canoas
    4304606
    Grupo 1
    1
    RS
    Caxias do Sul
    4305108
    Grupo 1
    3
    RS
    Erechim
    4307005
    Grupo 2
    1
    RS
    Estância Velha
    4307609
    Grupo 1
    1
    RS
    Gravataí
    4309209
    Grupo 1
    1
    RS
    Nova Santa Rita
    4313375
    Grupo 1
    1
    RS
    Passo Fundo
    4314100
    Grupo 1
    4
    RS
    Pelotas
    4314407
    Grupo 1
    9
    RS
    Porto Alegre
    4314902
    Grupo 1
    12
    RS
    Santa Cruz do Sul
    4316808
    Grupo 1
    1
    RS
    Santa Maria
    4316907
    Grupo 1
    3
    RS
    Santa Rosa
    4317202
    Grupo 2
    1
    RS
    Santana do Livramento
    4317103
    Grupo 2
    1
    RS
    Santo Ângelo
    4317509
    Grupo 2
    1
    RS
    São Leopoldo
    4318705
    Grupo 1
    2
    RS
    Sapiranga
    4319901
    Grupo 1
    1
    RS
    Sapucaia do Sul
    4320008
    Grupo 1
    2
    RS
    Triunfo
    4322004
    Grupo 1
    1
  • QUADRAS POLIESPORTIVAS: Relação dos municípios do RS selecionados em primeira chamada para a construção de quadras escolares poliesportivas no âmbito do PAC 2
  • RS
    Araricá
    4300877
    Grupo 1
    1
    RS
    Bagé
    4301602
    Grupo 1
    2
    RS
    Gravataí
    4309209
    Grupo 1
    4
    RS
    Nova Santa Rita
    4313375
    Grupo 1
    1
    RS
    Pelotas
    4314407
    Grupo 1
    2

A construção de 1,5 mil centros de educação infantil ao ano foi uma das plataformas de campanha da presidente Dilma Roussef. Atualmente, apenas 20% das crianças de 0 a 3 anos têm acesso a creches no país. Essa primeira lista de contemplados inclui municípios com mais de 50 mil habitantes e localizados em regiões metropolitanas. São Paulo é o estado com o maior número de projetos atendidos: 103 creches. Em seguida, aparecem Rio de Janeiro (59), Rio Grande do Sul (55) e Minas Gerais (51).

"O Sul e o Sudeste concentram os municípios de maior porte. Por isso, tiveram mais projetos selecionados. Mas no grupo 3 do PAC [formado por cidades de menor porte], que está sendo analisado, há uma quantidade muito grande de municípios inscritos”, explica Radunz. Segundo ele, há previsão de que mais duas listas sejam divulgadas até o final de abril. A meta é fechar 2011 com 1,5 mil creches.O Rio de Janeiro foi o município com mais projetos selecionados: receberá verba para construir 30 creches. De acordo com o coordenador-geral de Infraestrutura Educacional do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), Tiago Radunz, a seleção é feita com base no número de projetos inscritos e na demanda por vagas em creches que há naquela região.

De acordo Radunz , a inclusão das creches e quadras esportivas no PAC 2 facilitou a liberação dos recursos do governo federal para as prefeituras. Antes, esse repasse era feito pelo Proinfância (Programa Nacional de Reestruturação e Aparelhagem da Rede Escolar Pública de Educação Infantil) por meio de convênios. Havia uma queixa por parte dos prefeitos da quantidade de documentos e pré-requisitos que precisavam ser atendidos para receber a verba.
“É menos burocracia [pelo PAC 2]. Na modalidade de convênio pode haver contingenciamento orçamentário. Os prazos para que as prefeituras regularizem a documentação é dado ao longo do processo [pelo PAC 2 ]. Mas alguns critérios técnicos e de segurança precisam ser seguidos”, explica Radunz.
A partir da divulgação da lista dos contemplados, começa o processo de assinatura dos termos de compromisso e posterior repasse. O MEC disponibiliza para as prefeituras dois tipos de projeto de creche formulados a partir de critérios técnicos necessários para atender o público de 0 a 3 anos. Segundo Radunz, o total de recursos ainda que será liberado ainda está sendo definido com o Ministério do Planejamento.


Leia mais sobre o tema no link http://www.sof.org.br/publica/pdf_ff/70.pdf

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

“O aborto mal feito é a terceira causa de morte materna”

Entrevista Nalu Faria: “O aborto mal feito é a terceira causa de morte materna”
Participaram: Cecília Luedemann, Gabriela Moncau, Hamilton Octavio de Souza, Lúcia Rodrigues, Otávio Nagoya e Tatiana Merlino. Fotos: Jesus Carlos
Psicóloga, coordenadora geral da Sempreviva Organização Feminista (SOF) e integrante da Secretaria Nacional da Marcha Mundial das Mulheres, Nalu Faria é um dos nomes mais importantes do Brasil na questão da luta das mulheres. Feminista e anticapitalista, ela discute, nesta entrevista à Caros Amigos, as principais bandeiras do movimento de mulheres no país, como violência doméstica, equiparação salarial, luta contra o machismo e o direito ao aborto. A falta de atendimento médico e hospitalar adequado tem sido responsável pela morte de mais de 500 mulheres por ano no Brasil, devido a abortos clandestinos. .São mortes que poderiam ser evitadas. O assunto é recolocado na perspectiva da luta histórica da sociedade, diferentemente das distorções que sofreu no último processo eleitoral. Vale a pena conferir o que Nalu Faria tem a nos contar.
Hamilton Octavio de Souza – E nome completo.
Nalu Faria – Bom, meu nome é Nalu Faria Silva, eu nasci em Uberaba. Minha mãe morava na roça, e fui para Uberaba só para nascer e voltei. Eu vivi até os 9 anos em um sítio e depois a gente mudou para uma cidadezinha do lado, Água Comprida, onde vivi até terminar, na época, o ginásio.
Tatiana Merlino – Em que ano você nasceu?
Eu nasci em 1958 e vivi lá em Água Comprida até 1974. Aí fui para Uberaba, fiz o colegial, fiz a universidade lá, comecei a militar quando entrei na universidade, em 1978.
Lúcia Rodrigues – Que curso?
Fiz Psicologia. E vim para São Paulo. Tem exatamente 27 anos. Cheguei em São Paulo no dia 21 de outubro de 1983.
Tatiana Merlino – Por que você veio para São Paulo?
Acho que por duas coisas. Uma, porque estava militando em Uberaba. Era militante feminista no movimento estudantil lá. Estava num grupo de mulheres, no Partido dos Trabalhadores, as chamadas fundadoras do PT na cidade. E eu tinha muita vontade de militar. Então, eu achava que Uberaba era pequena. Queria militar e São Paulo aparecia como um bom lugar. Então, isso foi um dos motivos. Militante do PT e formada em Psicologia é difícil o acesso real ao emprego. Então vim para cá.
Tatiana Merlino – Em Uberaba você já começou a militar no movimento de mulheres?
Em Uberaba, a gente comemorou o 8 de março de 1980. Foi o primeiro contato com esse debate. Eu era do curso da Psicologia e lá tínhamos um bom grupo que naquela época estava aberto a esses temas da sexualidade, da discussão das mulheres, éramos briguentas. Nós escutávamos muito: “Pra quê vocês estão estudando se vão casar e ter filhos, pôr o diploma na gaveta, tudo isso”. Então, tinha muitos ataques machistas. O primeiro debate que eu fiz foi sobre aborto, um pouco antes de vir para São Paulo, 1983. Chegando em São Paulo, eu até brincava que tinha muita vontade de militar, mas com o desemprego em 1983, eu costumo dizer que a militância foi a última coisa que eu resolvi. Aqui, fiz várias tentativas de militância até que consegui achar um lugar no movimento de mulheres e, em 1985, eu comecei a militar no movimento de mulheres. E militando de forma cotidiana no PT nos últimos anos, em particular na secretaria de mulheres do PT. Eu fui da secretaria de mulheres do PT até 2004.
Hamilton Octavio de Souza – Antes disso, no final de 1979, a gente tinha aqui em São Paulo alguns jornais do movimento feminista: Nós, Mulheres, Mulherio, Brasil Mulher. Tinha vários grupos feministas. Quando você começou a militar, como era o movimento das mulheres em 1985?
Eu cheguei em um momento bem difícil do movimento de mulheres. Quando eu cheguei, não tinha um espaço de articulação do movimento, porque tinha tido aquilo no período da campanha eleitoral de 1982. A visão dos projetos políticos frente à transição da ditadura marcou dois campos no movimento das mulheres. O setor que era, na época, mais vinculado ao PMDB foi entrando mais para a política institucional, conselhos, e o outro campo de autonomistas, de reflexão, do Nós Mulheres, e outros, se desarticulou. A gente se juntava para organizar o 8 de março, e, justamente nessa época, a gente estava discutindo a importância de ter uma  coordenação do movimento de São Paulo para que funcionássemos para além do 8 de março. Mas, a partir de 1986, principalmente, o Encontro Feminista Latino-americano, que teve aqui em São Paulo, em 1985, deu um novo gás, e a partir de 1986 começaram a acontecer várias coisas no movimento de mulheres, para mim, que queria militar com os setores populares, que foi a articulação das mulheres da CUT, que foi em 1986. A gente começa a ir articulando outras coisas nos setores mistos.
Hamilton Octavio de Souza – Quais eram os pontos de luta?
Naquela época, tinha uma agenda forte com relação ao tema que se chamava planejamento familiar. Também tinha os temas da violência e da creche. A gente tinha vindo da campanha por creche, já tinha isso. E um tema genérico de “salário igual para trabalho igual”. Aí, com a Constituinte aparece o tema do aborto. A gente fez um processo de mobilização para colher 30 mil assinaturas, para entrar com uma emenda na Constituinte. Foi o momento que a gente colocou mais a cara na rua, com o tema do aborto. Conseguimos as 30 mil assinaturas e o que nós conseguimos na Constituinte, que o direito à vida, na Constituição, é desde o nascimento.
Hamilton Octavio de Souza – A diferença era entre a concepção e o nascimento?
No movimento das mulheres tinha prevalecido essa visão de não colocar o tema do aborto, porque se pusesse, ia apanhar. Como no anteprojeto vem essa questão do direito à vida desde a concepção, exige-se uma reação do movimento e aí aparece a emenda, a negociação, a mudança do artigo sobre o direito à vida. Depois começa a haver uma articulação das mulheres negras, com um primeiro encontro em 1988. Reaparece o grupo de mulheres lésbicas. A gente teve um Encontro Feminista em 1989, aqui em São Paulo, o 10º Encontro Nacional Feminista. Foi um marco: primeiro a gente saiu de lá com a ideia de fazer uma campanha nacional pela legalização do aborto, que era uma polêmica. Teve debates, oficinas amplas sobre a questão lésbica, do partido. Tinha coisas que também que, por um motivo ou por outro, no movimento feminista eram meio tabu, o partido não entrava, porque era movimento autônomo. Aí, depois nos anos 1990, o movimento de mulheres cai num processo de institucionalização, que a gente chama de aumento das Ongs, um momento que o movimento acompanha muito as agendas da ONU, que é essa idéia  do neoliberalismo, débâcle mesmo na discussão no movimento mais de esquerda.
Hamilton Octavio de Souza – Por que afetou? Em que aspecto?
Porque começa com um discurso no movimento de mulheres do impacto da globalização, do neoliberalismo. Primeiro uma ideia de que tinha perdido o papel dos Estados nacionais, que era uma agenda global da ONU e deveria inserir as questões dos direitos ali. Então, isso foi uma coisa que prevaleceu na América Latina e que significou uma profissionalização do movimento das mulheres, as pessoas começam a participar das conferências da ONU. Nossa avaliação, da Sempre Viva Organização Feminista (SOF), setor em que milito na Marcha Mundial das Mulheres (MMM) é que, embora não tenha grandes vitórias para o movimento de mulheres, na segunda metade dos anos 1990, as feministas que investiram nesse processo manejaram com um discurso triunfalista, de dizer que estava alcançando as vitórias; por exemplo, na Conferência do Cairo, que foi a conferência sobre população, entrou o tema do aborto, pela primeira vez, em 1994. Só no final dos anos 1990 que a gente consegue recuperar o fôlego, organizando um setor mais crítico ao neoliberalismo. Aqui no Brasil, nós identificamos como duas coisas: primeira, a vinda da campanha da Marcha Mundial das Mulheres para cá…
Tatiana Merlino – Como a campanha da Marcha chegou?
As mulheres do Quebec começaram a articular a Marcha. Elas tinham feito lá, em 1995, Pão e Rosas, já depois da assinatura do NAFTA, percebendo que ele ia trazer muitos retrocessos para as mulheres. E elas fizeram uma campanha, uma marcha mesmo, de 200 quilômetros e as principais reivindicações tinham a ver com o aumento do salário mínimo, coisas com relação à migração, a economia solidária, os direitos e documentação das imigrantes. E lá surgiu a idéia de ter uma marcha internacional em 2000. Aí elas começaram a articular e criaram essa coisa da internet para a gente aderir. E quem chamou a primeira reunião aqui para definir quem ia para o encontro internacional em 1998, onde a gente definiria a plataforma da marcha, foi a própria CUT, o setor de mulheres. Ela começou como uma campanha, em 2000, contra a pobreza e a violência. Fizemos a marcha em 2000, e teve grande impacto, já desde o seu lançamento, porque era algo articulado, uma campanha nacional que era também internacional. E, na avaliação da marcha, que foi lá em Nova York, depois de 17 de outubro, teve a proposta de continuidade, como um movimento permanente. Foram 163 países que participaram da primeira [marcha]. Hoje nós estamos em 70 países. Então, começamos a articular a marcha como um movimento permanente. A gente se vinculou muito ao processo do Fórum Social Mundial. Fizemos duas ações que ajudaram muito a articular a marcha aqui: o nosso envolvimento na campanha contra a Alca, e a campanha pela valorização do salário mínimo. Outra coisa que foi forte desde o início na marcha foi conseguir articular um movimento que junta mulheres da cidade e do campo.
Hamilton Octavio de Souza – Quais são os pontos de união entre as mulheres do campo e as mulheres da cidade? O que tem em comum de luta?
A gente está vendo mais pontos que unificam. No caso das trabalhadoras rurais, no início do ano 2000, depois de ter conquistado o direito à aposentadoria, o reconhecimento como trabalhadora rural, elas estavam cada vez mais reivindicando políticas em relação, vamos dizer assim genericamente, ao mundo do trabalho. Não só a posse da terra, crédito, e outras coisas que diferencia de movimento para movimento, mas tem uma pauta comum, aí. Mas, é impressionante como, por exemplo, para a trabalhadora rural também toca o tema da violência, o tema da saúde. E, na medida em que a gente está construindo um movimento que olha para esse geral do modelo de desenvolvimento, do modelo de sociedade, os pontos em comum são cada vez maiores. Então, ter uma opinião sobre a política econômica, ter uma opinião sobre a política previdenciária são coisas que nos juntam. A gente tem tentado mostrar que não se constrói soberania alimentar se não, por exemplo, se altera o que é a indústria da alimentação. Os temas que antes não pareciam ter tanto vínculo entre a mulher urbana e a rural, a gente vai mostrando como as coisas estão vinculadas.
Lúcia Rodrigues – Hoje, dá para se dizer que existe uma bandeira das mulheres?
Este é um dos problemas que nós temos no movimento de mulheres. Sempre foi difícil priorizar. O movimento de mulheres, depois foi se organizando muito por temas. Então, tinha a turma que trabalhava o tema da violência, turma da saúde, depois da moradia, sindical. Então, o leque foi se abrindo muito. E isso é uma das dificuldades que a gente tem de construir processos de articulação e mobilização mais ampla, porque tem uma plataforma muito ampla que não consegue definir prioridades por um período. Então, é um movimento multifacetado. Na verdade, nós não somos o movimento de mulheres, somos um setor do movimento de mulheres, no nosso caso da Marcha.
Para ler a entrevista completa e outras matérias confira a edição de novembro da revista Caros Amigos, já nas bancas, ou clique aqui e compre a versão digital da Caros Amigos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Economia Feminista: autonomia financeira para as mulheres.

Ao iniciarmos a reflexão em torno do tema da economia feminista precisamos pensar a respeito do trabalho das mulheres no enfrentamento da sua invisibilidade, principalmente, do trabalho doméstico e de cuidados. Esta divisão sexual do trabalho que naturaliza que as mulheres devem cuidar da alimentação da família, dos idosos, dos filhos, da casa e de seus arredores, restringe o lugar social das mulheres na economia, contribuindo para a manutenção do poder social masculino.

Por isso, desde o século XIX, as feministas têm questionado o atual modelo dominante de economia, que torna homens e mulheres desiguais e que impede o protagonismo feminino frente às políticas públicas, mantendo grande parte das mulheres em situação de pobreza e impede a igualdade de direitos. 

Desta forma, a economia feminista também luta pela igualdade salarial entre mulheres e homens, pelo reconhecimento do trabalho doméstico como um valor e pelo fim da divisão do mundo em dois espaços: o público e o privado. Isto porque entendemos que as mulheres são excluídas do mundo público, o da produção, o que reforçou a sua dependência econômica em relação aos seus pais, maridos e filhos adultos.

Sendo assim, percebe-se que as mulheres foram destinadas à esfera privada, a da reprodução, como parte de um destino biológico, vinculado à maternidade, desconsiderando a sua produção doméstica e o papel econômico do seu trabalho na família. Embora, os indicadores sociais demonstrem que o trabalho das mulheres supre melhor as necessidades dos membros da família e em condições muito mais duras do que as suportadas pelos homens, ainda existe grande desqualificação ao trabalho das mulheres.

Portanto, a economia feminista busca dar visibilidade às mulheres enquanto protagonistas na economia, e assim enfocar o grande volume de trabalho doméstico e de cuidados desempenhado por elas. Ainda neste tema, abordamos a organização das mulheres em grupos de produção, cooperativas, e associações. Estamos falando de economia solidária e das mulheres.

Mas o que é economia solidária?


Trata-se de um conjunto de iniciativas associadas que através da autogestão, estão articuladas em redes de cooperação, mutirões e redes solidárias. Todas estas relações estão construindo novas formas de fazer o trabalho, baseadas na democracia, na participação, na posse coletiva dos bens, e na distribuição eqüitativa dos ganhos. Além disto, se busca orientar as práticas econômicas na direção dos princípios da sustentabilidade humana, social, econômica, ambiental e cultural.

Dentre todos estes debates, a economia solidária também traz para a discussão a situação das mulheres no mundo do trabalho, e qual o papel por elas cumprido nas relações de trabalho e na produção da riqueza nacional. No Brasil, as mulheres são mais pobres, e em particular as negras e rurais. Segundo, o PNDA de 2007 verificou-se que as mulheres rurais recebiam o equivalente a 68% do rendimento dos homens. Isso significa que a força de trabalho feminina é desvalorizada e que a distribuição de renda desigual é um profundo problema em nosso país. 

Neste sentido, a economia solidária tem como princípio o fim da exploração da força de trabalho das mulheres, bem como, a nossa participação em todos os processos de produção e de comercialização, eliminando a histórica divisão sexual do trabalho. E ainda, promove a conquista da autonomia econômica das mulheres através da auto-organização de grupos produtivos e que também englobam as trabalhadoras rurais, fomentando o consumo consciente, a conservação do meio ambiente e a segurança alimentar, o combate à desigualdade e a valorização do trabalho feminino e do protagonismo das trabalhadoras rurais. o, eliminando a histsos de produças inina s rurais recebiam o equivalente a 68% do rendimento dos homens.

Íris de Carvalho - texto direcionado ao Projeto Reorganizaçaõ Produtiva das Trabalhadoras Rurais do Vale do Rio do Sinos Serra.



Reorganização do trabalho: uma luta pela autonomia econômica das mulheres.


O trabalho humano em sua História nem sempre foi usado como uma mercadoria, separada de sua natureza. O seu desenvolvimento tem como princípio a necessidade básica de superar-se no meio onde estabelecemos nossos vínculos sociais. Portanto, pode-se afirmar que o trabalho é um elemento central da atividade humana e em seu processo de sociabilidade e emancipação.
 Por isso lutamos pelo reconhecimento do trabalho das mulheres e questionamos a divisão sexual do trabalho. Podemos dizer que estes dois elementos estão no centro do debate sobre a autonomia econômica das mulheres.

E para conquistarmos a autonomia econômica feminina também precisamos, desde já, construirmos novas relações sociais e uma nova economia. Isto porque atualmente, o que predomina é um modelo que não considera produtivo as atividades realizadas no espaço doméstico, de cuidados e para auto-consumo que são essencialmente desenvolvidos por mulheres. Além disto, desvaloriza o trabalho feminino através de baixos salários, permanecendo as diferenças sociais entre homens e mulheres.

Mas o que é divisão sexual do trabalho?

É o tipo de Trabalho socialmente designado para mulheres e homens.
Costumamos ouvir dizer que tal serviço é trabalho “de homem” ou que tal tarefa é tarefa “de mulher”.
E o que isto tem a ver com nossas vidas? Tudo! Porque a divisão sexual do trabalho estabelece, prioritariamente, para as mulheres as responsabilidades pelo cuidado com a casa, as crianças, os idosos e doentes. E quando existe a tentativa de realizá-lo fora de casa, ele se demonstra uma extensão do papel de mãe. As mulheres se concentram em atividades consideradas, tipicamente, femininas como professoras, enfermeiras, assistentes sociais e costureiras.
Quando estão no campo, as mulheres também são menos valorizadas que os homens, porque o trabalho valorizado pela sociedade é o da força física necessária para executá-lo. No entanto, quando as mulheres trabalham na roça, é considerado ajuda ao marido “coisinha à toa”, permitindo a desvalorização das trabalhadoras rurais e mantendo as desigualdades sociais.
Por isto, além de melhor dividir o trabalho doméstico entre mulheres e homens, precisamos que o Estado assuma a necessidade de melhorar as condições de vida das mulheres, através de políticas públicas concretas, como por exemplo: garantia de direitos trabalhistas para as trabalhadoras rurais, políticas de geração de emprego e renda como o incentivo a criação de cooperativas de produção, comercialização/feiras, saúde integral próximas as colônias, delegacias da mulher e combate a violência no campo, consolidação do trabalho da trabalhadora rural e previdência social para as trabalhadoras rurais.


Igualdade de Gênero - Mudar a Vida das Mulheres para Mudar o Mundo: a nossa luta é por Igualdade de Gênero.

Ao entrarmos na discussão em torno do significado da luta pela igualdade de gênero, torna-se fundamental que possamos entender o significado do ser mulher, a fim de que possamos ter subsídios suficientes para refletirmos em torno da conquista pela igualdade de gênero.
Sendo assim, o que é ser mulher? Porque mulheres e homens vivem em condições de desigualdade? Porque se diz que algumas coisas são de mulheres e outras são de homens? Porque mulheres são consideradas inferiores e vivem situações de injustiça por serem mulheres? 
A desigualdade de gênero é uma construção social que começa com o nascimento. É a partir deste momento, que meninas e meninos são criadas e educadas conforme o que a sociedade definiu como próprio de mulher e de homem. Assim, as crianças são levadas a identificarem-se com modelos do que é feminino e do que é masculino para melhor desempenharem seus papéis correspondentes.
Sendo assim, a problemática se destaca porque as atribuições estabelecidas às mulheres são diferentes das dos homens e também são desvalorizadas. Por este motivo, nós mulheres vivemos em condições de inferioridade e subordinação em relação aos homens. Isto significa que as desigualdades entre homens e mulheres são construídas
pela sociedade, e, portanto, não são determinadas pela diferença biológica entre os sexos.
Portanto, esta desigualdade gerada pela sociedade estabeleceu ao longo da história um modelo de vida para as mulheres e outro para os homens. Nesta compreensão, nós mulheres ocupamos um modelo de vida tradicionalmente reservado à maternidade, aos cuidados da casa, dos filhos, da tarefa de guardiã do afeto, da moral e da família, ou seja, as mulheres devem sentir que estão realizadas no espaço privado da casa. Enquanto isto, aos homens a sociedade reservou um modelo dinâmico de vida, onde ele é o provedor do lar, ou seja, ele trabalha fora, e é o responsável pelo sustento da família, realizando-se fora de casa no espaço público.
No entanto, esta realidade de reservar para as mulheres somente o trabalho doméstico, é possível apenas para uma parcela muito pequena de mulheres. Por exemplo, para as trabalhadoras rurais o que é chamado de cuidar da casa, envolve o trabalho na roça, a produção de artesanato, o cultivo da horta e a criação de animais, trabalho que produz mercadorias, cuja comercialização contribui para o sustento da família.
Isto significa, que muitas mulheres trabalham fora de casa, sustentam ou dividem com seus maridos o gerenciamento financeiro da família.
  Portanto, precisamos desnaturalizar os mecanismos que determinam os papéis sociais entre mulheres e homens, sendo fundamental entendermos que somos frutos da forma como aprendemos a ser e não da natureza biológica. 
Ainda que, ao longo da história as relações entre mulheres e homens tenham variado, e que nos últimos trinta anos a ação organizada das mulheres e do feminismo tenha alcançado muitas conquistas em torno da luta das mulheres é essencial que continuemos combatendo o machismo, o patriarcado e o atual modelo de vida social, bem como, devemos continuar formulando uma plataforma política de reivindicação dos direitos das mulheres e que nos coloque no caminho da igualdade de gênero.


Íris de Carvalho - texto direcionado ao Projeto Reorganizaçaõ Produtiva das Trabalhadoras Rurais do Vale do Rio do Sinos Serra.